terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O Pedante

O PEDANTE
Adaptação de Marcus Villa Góis da tradução de Roberta Barni do original de Flaminio Scala em Il Teatro delle favole rappresentative... Ed. Iluminuras, São Paulo, 2003. 1ª Ed.: Pulciani, Veneza, 1611.

Personagens


Pantaleão, ator 1
Isabela, sua esposa, ator 5
Flávio, seu filho, ator 7
Arlequim, seu criado, ator 3
Flamínia, ator 2
Horácio, Pedante, professor de Flávio, ator 6
Graciano, ator 4



COISAS: Lenços, anel, disfarce de carregador, porrete amansa cobra, uma gamela, dois facões, duas roupas de açougueiro.

Argumento
            Vivia em sua pátria de Veneza um mercador riquíssimo, Pantaleão dos Humildes era o seu nome. Ele tinha por esposa uma belíssima jovem, que atendia pelo nome de Isabela, e dela teve um filho, chamado Flávio. Para criá-lo com aqueles hábitos honrados que convém a um jovem de semelhante berço, sob os cuidados e a disciplina de um Mestre Horácio Pedante o mantinham. E pois que o mencionado Pantaleão era homem que, de boa vontade, à crápula e as meretrizes se dava, veio mais e mais vezes a discutir com sua mulher, e mais e mais vezes o referido Pedante fez com que ela se reconciliasse e apaziguasse com o marido.
            Deu-se um dia (como amiúde acontece) que o bom Pedante sentiu vontade de conhecer o sabor da mulher do citado Pantaleão, e, aguardando a oportunidade de nova discórdia e nova rixa entre mulher e marido, revelou-se apaixonado por ela, pedindo-lhe, com palavras eficazes que o satisfizesse. A mulher, que estimava muito a sua honra, depois de prometer, pôs o marido a par de tudo. Ao Pedante então, e de comum acordo, urdiram um belíssimo engano e um castigo, como exemplo para os outros Pedantes, como no decorrer da fábula ficaremos sabendo. 

Veneza.

CENA 1: FLÁVIO, PANTALEÃO e HORÁCIO
Flávio repreende o pai por trair a sua mãe Isabela. Pantaleão se justifica sendo macho e manda o filho espelhar-se. Brigam. Ao ouvir a confusão Horácio chega e aparta a briga com palavras agradáveis, pois ele foi o mestre de Flávio. Horácio leva Pantaleão para casa. Flávio, sozinho, difama Horácio e o pai.

CENA 2: ISABELA, ARLEQUIM e FLÁVIO
Isabela entra dando pauladas em Arlequim e o repreende por roubar o vinho da adega. Flávio defende Arlequim e repreende a mãe. Isabela irrita-se com Flávio e diz que ele é igual ao pai; sai. Flávio sai atrás desolado. Arlequim diz que vai contar tudo a Pantaleão e sai.

CENA 3: GRACIANO
Graciano diz que está indo de Nápoles a Milão, mas que parou em Veneza devido às maravilhas da cidade.

CENA 4: ISABELA, GRACIANO e ARLEQUIM
Isabela à janela, vê Graciano e deixa o seu lenço cair.  Graciano pega-o. Isabela sai de casa e vem pro palco. Graciano quer lhe devolver o lenço. Isabela nega querer o lenço e oferece outros. Graciano oferece um anel. Isabela aceita o anel. Graciano pergunta se ela é casada. Ela, suspirando, responde que sim. Nisto: Arlequim chega. Isabela percebe a presença de Arlequim e vai para dentro.

CENA 5: GRACIANO e ARLEQUIM
Arlequim pergunta quem é o forasteiro. Graciano se apresenta enquanto Doutor. Arlequim diz que ouviu o suspiro de Isabela e viu o anel dado e que aquela é sua esposa. Graciano treme, disfarça e oferece dinheiro e luxo pra conseguir outra mulher. Arlequim concorda e apertam as mãos. Graciano sai pela rua.

CENA 6: ARLEQUIM e ISABELA
Arlequim quer contar o namoro de Isabela com Graciano a Pantaleão para se vingar das pauladas. Isabela entra imitando Arlequim e dizendo que ouviu toda a combinação e viu o aperto de mão, diz que quem vai contar tudo a Pantaleão é ela. Saem os dois, ela batendo nele e chamando-o de cafetão.

CENA 7: FLÁVIO e FLAMÍNIA
Flamínia à janela elogia a qualidade do dia. Flávio entra reclamando da mãe que o comparou ao pai. Se vêem, fazem cena de amor recíproco e saem.

CENA 8: PANTALEÃO e ARLEQUIM
Pantaleão manda Arlequim arrumar a casa. Arlequim concorda, mas que antes deve contar que Isabela presenteou Graciano com um lenço e aceitou dele um anel. Pantaleão admira-se, pois nunca viu um ato desonesto de sua mulher. Arlequim fala das pauladas que recebeu de Isabela.

CENA 9: PEDANTE,  PANTALEÃO e ARLEQUIM
Pedante chega. Pantaleão cumprimenta-o, fala o que Arlequim contou de Isabela e pede sua ajuda para que descubra a verdade. Pedante diz que Arlequim jamais deveria ter dito aquilo e que deixe por conta dele que vai tratar de descobrir a verdade. Dá pauladas em Arlequim que sai.

CENA 10: FLÁVIO, PANTALEÃO e PEDANTE
Flávio cumprimenta o Pedante. Pedante pergunta dos estudos de Flávio. Flávio diz que não vai bem nos estudos. Pedante culpa Pantaleão e o manda ajudar Flávio. Pantaleão sai com Flávio.

CENA 11: PEDANTE, ISABELA e ARLEQUIM (que observa escondido)
Pedante, só, discorre sobre seus planos e seus vícios. Bate à casa de Isabela chorando. Isabela cumprimenta o Pedante e pergunta o motivo do choro. Ele conta da calunia do anel recebido de Graciano. Ela confessa ter cometido a falta por culpa de Pantaleão que cuida de outras mulheres e vive viajando. Ele diz que se ela quiser se aliviar de alguma vontade que use pessoas de casa e não recorra aos forasteiros. Ela finge não ter entendido, diz que vai se reconciliar com o marido e sai. O Pedante diz que percebeu que realmente Isabela vai satisfazê-lo e sai.

CENA 12: ARLEQUIM e FLAMÍNIA
Arlequim sai do esconderijo e  comenta o caráter do Pedante, diz que conhecendo a patroa há anos, sabe que ela vai satisfazê-lo. Flamínia pergunta onde está Flávio, que não o vê há muito tempo naquele lindo dia.

CENA 13: GRACIANO, ARLEQUIM e FLAMÍNIA,
Graciano pergunta sobre a esposa de Arlequim e sobre o combinado de arrumar mulheres. Arlequim pergunta do dinheiro e do luxo. Graciano paga e pergunta da moça na janela. Arlequim aponta Flamínia, diz o nome dela, que é mulher fácil e que irá entreter os outros dentro de casa para que os dois possam conversar à vontade.

CENA 14: FLÁVIO, GRACIANO, FLAMÍNIA  e ARLEQUIM
Flávio entra, vê os dois conversando e se esconde. Graciano pergunta o nome da moça.  Flamínia responde, ele elogia a beleza de Flamínia. Ela agradece elogio e sai sem se despedir. Graciano pergunta se Flamínia é casada. Arlequim, que se colocou na sacada imitando a voz de Flamínia responde que é namorada, mas que aquilo não é um empecilho. Paqueram e Arlequim manda Graciano voltar disfarçado de carregador. Graciano, animado, concorda e sai.

CENA 15: FLÁVIO E ARLEQUIM
Flávio apresenta-se desesperado por Flamínia tê-lo traído. Arlequim esclarece que era ele imitando a voz e manda ele não se preocupar. Saem com Arlequim contando de Isabela e Horácio.

CENA 16: PANTALEÃO e HORÁCIO
Pantaleão procura Horácio. Pedante chega. Pantaleão pergunta se ele descobriu algo de Isabela. Horácio diz que Isabela é uma santa e diz pra ele fazer as pazes com ela. Pantaleão chama Isabela.

CENA 17: PANTALEÃO, HORÁCIO E ISABELA
Isabela entra. Pantaleão pede desculpa e pede para fazer as pazes. Fazem as pazes. Horácio, Pedante, faz sinais a Isabela sem que Pantaleão veja. Saem os três.

CENA 18: ARLEQUIM, FLÁVIO, depois FLAMÍNIA
Arlequim entra em cena com Flávio concluindo o relato sobre Isabela e Horácio. Flávio espanta-se com o que Arlequim lhe relatou sobre sua mãe. Flamínia aparece na sacada quando ouve a voz de Flávio. Arlequim dá as instruções do plano para pegar o Graciano: manda Flamínia se fazer de gentil quando ele chegar disfarçado de carregador e Flávio se esconder. Flávio se esconde e, apartado, ouve tudo. Arlequim também se esconde e, apartado, ouve tudo. Flamínia pega o “amansa cobra”, mostra-o ao público e o esconde ao ver surgir Graciano disfarçado.

CENA 19: GRACIANO, FLAMÍNIA, FLÁVIO e ARLEQUIM
Graciano apresenta-se como carregador e diz ter uma encomenda para dona Flamínia, confiante de já tê-la ganho. Flamínia mostra-se gentil, responde aos intentos do Graciano, mas mostra para o público o pau que desferirá sobre o Graciano. Chama Graciano para dentro. Graciano contente vai entrar na casa, mas, antes disso, ela sai e o espanca. Flávio e Arlequim ajudam Flamínia a espancar Graciano. Graciano deixa a cena na base da pancada. 

Cena 20: ARLEQUIM,  FLÁVIO e FLAMÍNIA
Arlequim comenta o sucesso do seu plano. Flamínia elogia Flávio, pela sua bravura. Flávio elogia Flamínia, pela sua inteligência. Arlequim, afastado, assobia música de amor. Flamínia e Flávio tocam as mãos em sinal de matrimônio, saem. Arlequim comenta que com o Graciano está resolvido, encolerizado, diz que ainda falta pegar o Pedante, sai.

Cena 21: PANTALEÃO e ISABELA.
Pantaleão abençoa o Pedante e atribui a ele o sucesso da reconciliação com sua esposa. Isabela concorda que a reconciliação fez bem pra eles, mas que o Pedante lhe ofereceu ajuda à suas necessidades venéreas, enquanto ela estava vulnerável. Pantaleão espanta-se, pois sempre o considerou um homem honesto, e solicita-lhe uma prova do que diz.
Isabela diz a Pantaleão que encontre o Pedante e diga que não dormirá em casa na noite seguinte, pois irá viajar a negócios. Pantaleão concorda. Isabela sai.

Cena 22: HORÁCIO e PANTALEÃO
Horácio, Pedante chega usando seus volteios de belas palavras e adulando Pantaleão. Pantaleão pede a Horácio que este fique em sua casa e cuide das coisas em sua ausência, pois viajará esta noite a negócios. Horácio aceita o pedido, enfatizando sua destreza em governar famílias, citando sua experiência nesta tarefa. Finaliza desejando que Pantaleão siga na santa paz e que deixe o resto com ele, saindo cheio de cerimônias.

Cena 23: PANTALEÃO e ARLEQUIM
Pantaleão chama Arlequim. Arlequim entra em cena. Pantaleão diz que precisa fazer muito esforço para crer que semelhante homem, um homem como Horácio, se trate de um reles, mas pede que ele fique de guarda. Sai.

CENA 24: HORÁCIO e ARLEQUIM
Horácio chega. Arlequim ao ver o Pedante chegando, se esconde e ouve tudo apartado. Horácio comenta com o público que é chegada a ocasião dele desfrutar a vontade de Isabela e que percebeu nela um desejo mútuo, ainda que a mesma não tenha verbalizado nada. Bate à porta de Isabela.

CENA 25: ISABELA, HORÁCIO e ARLEQUIM
Isabela vai à sacada e encontrando o pedante chorando, pergunta-lhe o que aconteceu.
Horácio diz morrer de amores por ela e sentir que se ela não o corresponder ele certamente morrerá. Complementa que a ocasião não poderia ser melhor já que Pantaleão não estará em casa esta noite. Isabela, para apanhá-lo, diz que espere por ela em seu quarto, despido, e que apenas irá se encontrar com Flamínia para avisar-lhe que esta noite não venha à sua casa, já que é seu costume dormir com ela na ausência de Pantaleão. Horácio, alegre, entra em casa para se despir. Arlequim se mostra insinuando coisas a Isabela. Isabela diz que o plano deu certo e manda Arlequim chamar Flávio e Pantaleão, pois o Pedante está trancado no quarto nu.

Cena 26: ARLEQUIM, FLÁVIO, PANTALEÃO, ISABELA depois.
Arlequim chama Flávio e atrapalhadamente lhe relata que o Pedante está trancado nu no quarto de sua mãe. Em seguida chama Pantaleão e faz o mesmo, enfatizando que a emboscada funcionou. Isabela aparece rindo e diz que o Pedante está à sua espera e pergunta a todos qual o melhor castigo para lhe aplicar. Flávio sugere pauladas. Pantaleão: Chicotadas. Arlequim diz que tanto melhor se o mal fosse cortado pela raiz e sugere que ele seja capado. Chama Flávio para ambos providenciarem os instrumentos do castigo. Saem

CENA 27: ISABELA, HORÁCIO, PANTALEÃO depois ARLEQUIM, FLÁVIO, FLAMÍNIA e depois GRACIANO
Isabela abre a porta do quarto revelando o Pedante nu e afoito para o amor. Pantaleão espanta-se. Horácio tenta se explicar sem se culpar. Flávio, Arlequim e Flamínia chegam com instrumentos. Horácio com medo assume toda a culpa e inocenta Isabela. Graciano chega e pergunta o que vão fazer com ele. Todos: respondem com gestos que o vão castrar. Graciano pede calma e sugere uma surra. Todos: discordam e discutem com o Graciano. Horácio aproveita  a discussão e escapa. Graciano avisa a todos que ele está escapando. Todos correm atrás do Pedante. Graciano canta: “Esta história de um pedante, por todos vista e ouvida. Se verdadeira ou se mentira, Depende de quem acredita. / Mas que sirva de lição, Essa história contada, Porque toda grande pretensão, Quase sempre, termina em nada”.

Assim termina a comédia

Cenas a serem ensaiadas
Pedanteria do Graciano
Cena de amor recíproco
Elogio a vilania do Pedante
Cena de espancamento
Elogio ao amor: Graciano, Flávio e Flamínia
Adulação a todos do Pedante
Música de Graciano.

sábado, 1 de janeiro de 2011

#Presidenta

Assisto empolgado e emocionado a posse da presidenta Dilma. O que me causa maior espanto é perceber que nenhum jornalista se refere à Dilma como presidenta, mas sim presidente. Para ser preciso, a TV Brasil, retransmitido na Bahia pela TVE, e ocasionalmente a Rede Record, usavam o termo presidenta. As outras emissoras, ainda quando citam as palavras de Dilma às transformam, ou camuflam, ao masculino. Aí eu me pergunto, será proposital? Tanto os termos presidente quanto presidenta estão corretos, mas somente um sobreviverá. Eu duvido muito que os jornalistas não saibam disso. Sarney do topo de sua arrogância falava presidente, mas desse cidadão eu quero me distinguir o mais possível. Não é um momento qualquer na história do Brasil, nos próximos 500 anos, pelo menos, Dilma vai ser lembrada como a primeira presidenta ou presidente do Brasil. Não sei se ela será uma boa ou uma má governante, isso não vem ao caso aqui, mas como deve se chamar o maior cargo da política brasileira quando ocupado por uma mulher. A língua de um povo é o seu espelho, a sua alma. Eu quero um país rico, justo e ecológico, um país em que não haja diferenças econômicas gritantes entre os seus habitantes, um país de negros, índios, brancos, homens e mulheres. Milhões são os casos de violência contra a mulher. Um coletivo de um homem no meio de muitas mulheres é chamado de “eles”. Será que esses fatos estão relacionados? No mundo, séculos de um sistema patriarcal causou uma série de desigualdades de gênero que foi preciso o surgimento do movimento feminista para reagir intensamente às manifestações machistas. O eco-sistema, e aqui falo da maneira mais global possível, estará mais equilibrado se reduzirmos as diferenças sociais, se formos mais condescendentes, se nos preocuparmos mais com o ser do que com o ter, se houver respeito entre os seres. Se respeitarmos as raças, os credos, os ideais, os povos e os gêneros poderemos vislumbrar a Terra com menos acidentes climáticos e mantê-la por mais tempo em seu delicado equilíbrio.

A imprensa brasileira, com sua mania de perseguição, sugere que está havendo uma tentativa de retorno da censura. Mas a imprensa brasileira não é um substantivo abstrato, é concreto e possui proprietários com interesses econômicos cada vez mais gananciosos. Do tipo que vão contra o equilíbrio planetário. A exceção da TVE todas as emissoras brasileiras chamavam Dilma presidente. A programação sucessiva da TVE à posse de Dilma foram os programas Sustentáculo e Almanaque, ambos com preocupação  sócio-ambiental típico de uma rede televisiva com responsabilidade social.

Pessoalmente acredito que a mulher tenha qualidades de harmonização, de afetividade, de compreensão, mais desenvolvidas que o homem. E, no entanto, percebo que mesmo em um país emancipado como o Brasil, se comparado com os países do Oriente Médio, as mulheres são descriminadas e desvalorizadas. É isso que proponho com esse texto apressado, uma revalorização feminina. A utilização do termo presidenta. E para essa campanha não acredito que possamos contar com a imprensa “livre”, não por enquanto. Devemos jogar toda essa força pela internet. A mesma net que me permite despedir assim: adeus amig@s.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A Fonte Encantada

Irei publicar um roteiro por semana que serão apresentados no Festival de uma Cia Só, parte integrante da minha Pesquisa de Doutorado. Qualquer contribuição sobre a estrutura dos roteiros será muito bem vinda.


A FONTE ENCANTADA - Pastoral
Tradução, adaptação e argumento: Marcus Villa Góis. Manuscrito original conservado na Biblioteca Corsiniana Roma, Manoscritti 45G5 e 45G6. Publicado por: TESTAVERDE, Anna Maria. I Canovacci della Comedia dell’Arte. Torino: Giulio Einaudi, 2007.

Personagens


Pantaleão, Mercador. Ator 1.
Isabela, que se crê filha. Ator 5.
Arlequim, servo. Ator 3.
Graciano, Doutor. Ator 4.
Horácio, filho. Ator 6.
Capitão. Ator 7.
Covielo , servo. Ator 6.
Francisquinha. Ator 2.
Hortência, depois filha de Pantaleão. Ator 5.
Mago. Ator 2.
Músico. Ator 4.
Leão. Ator 2.



Coisas: Garrafinha com água, roupa de leão, armadura leve, dinheiro, urinol, roupa de nobre para Arlequim, corda, roupa de louco. Cartas, roupa de homem para Isabela, estilingue.



Argumento
            Numa pequena cidade, no interior da Itália, viviam duas poderosas famílias, uma de um mercador conhecido como Pantaleão, que tinha por filha a doce Isabela e por empregado um astuto servo que atendia pelo nome de Arlequim, e a outra de um mercador conhecido por Graciano, pai do nobre Horácio, servidos pelo estabanado servo Covielo. Nesta mesma cidade, desprezada por todos, por causa de sua pobre condição, vivia também a bela Hortência e sua misteriosa mãe Francisquinha. As revelações que Francisquinha fará serão conhecidas no decorrer da ação.

Cidade.

CENA 1: HORÁCIO e ISABELA
Horácio fala sobre o amor de Isabela, filha de Pantaleão, bate palma. Isabela, da janela, ouve Horácio e se descobrem amantes, trocam juras de amor, combinam fugir com a madrugada e entra; ele vai encontrar músicos e sai feliz.

CENA 2: PANTALEÃO e HORTÊNCIA
Pantaleão fala sobre o amor de Hortência, filha de Francisquinha, bate palma. Hortência, da janela, compreende o amor do velho, diz que fale com sua mãe e entra em casa. Nisto.

CENA 3: CAPITÃO, PANTALEÃO e FRANCISQUINHA
Capitão narra as suas bravuras, declara o seu amor por Hortência. Pantaleão e Capitão se descobrem rivais, depois de disputa concluem falar com a mãe de Hortência, batem chamando Francisquinha. Francisquinha sai de casa. Capitão lhe pede Hortênsia por amante, concubina, ela enxota-o, Capitão bradando, sai. Pantaleão a pede por esposa, ela se alegra e entra. Nisto.

CENA 4: GRACIANO, PANTALEÃO E ARLEQUIM
Graciano, depois das saudações, conclui, com Pantaleão, dar Isabela a Horácio, e que não dirão nada até o próximo dia. Graciano sai para convidar os parentes. Nisto: Arlequim sai de casa, Pantaleão diz que quer ir a um banquete à noite, Arlequim diz querer ir também; ao fim Pantaleão se alegra e chama Isabela.

CENA 5: ISABELA, PANTALEÃO e ARLEQUIM
Isabela entende que Pantaleão não volta à noite, finge desagrado; ele vai embora, ela conta a Arlequim toda a combinação. Arlequim fica contente, entram.

CENA 6: CAPITÃO, COVIELO, MÚSICO depois ISABELA
Feitos os lazzi, se colocam em guarda, músico canta. Isabela, acreditando que o Capitão fosse Horácio, foge com ele. Nisto.

CENA 7: ARLEQUIM, COVIELO, MÚSICO
Arlequim esvazia um urinol em cima de Covielo e do Músico fazendo terminar a cena.

CENA 8: HORÁCIO, MÚSICO
Horácio cantando embaixo da janela de Isabela. Nisto

CENA 9: HORÁCIO, MÚSICO e ARLEQUIM
Arlequim com uma touca de dormir da janela grita que não o deixam dormir. Músico foge com medo. Horácio se faz conhecer, Arlequim sai, diz que Isabela foi embora; ele, fazendo loucuras, parte; Arlequim imita-o. Nisto

CENA 10: PANTALEÃO e ARLEQUIM
Pantaleão diz que vem do banquete, ri de Arlequim, ao fim, diz a Arlequim para que consiga uma mulher, Arlequim ri; ao fim, compactuam, se alegram fingindo Pantaleão ser o Conde Polidoro; Pantaleão bate pra chamar Francisquinha.

CENA 11: FRANCISQUINHA, PANTALEÃO, ARLEQUIM e HORTÊNCIA
Francisquinha, em cena, compreende o jogo do Conde, fazem lazzi; ao fim se alegra e chama Hortência. Hortência, por compaixão à mãe, toca a mão do conde, mas foge dele; Francisquinha corre atrás dela.

CENA 12: PANTALEÃO e ARLEQUIM
Pantaleão dá dinheiro a Arlequim para o banquete e para vestir a noiva; entra em casa e não encontra Isabela, grita com Arlequim, o qual foge. Nisto.

CENA 13: GRACIANO, PANTALEÃO depois ARLEQUIM
Graciano surge desesperado pelo filho louco, Pantaleão diz que Isabela se tornou vagabunda; sofrem juntos. Nisto: Arlequim surge na rua, batem nele, descobrem tudo. Nisto.

CENA 14: MAGO, GRACIANO, PANTALEÃO e ARLEQUIM
Mago diz a eles sobre a água da fonte encantada, guardada por um leão e sai; Graciano vai procurar quem vá pegar a água. Nisto.

CENA 15: CAPITÃO, PANTALEÃO e ARLEQUIM
Capitão em cena. Pantaleão conta tudo e roga que ele vá nesta empreitada, ele contente vai se armar. Nisto.

CENA 16: HORÁCIO, COVIELO, PANTALEÃO e ARLEQUIM
Horácio fazendo loucuras, jogam a cartas. Horácio prega uma peça neles e sai. Nisto.
Covielo: espanca Arlequim pela urina, saem todos e termina a cena.

CENA 17: ISABELA e HORÁCIO
Isabela, chorando, vestida de homem com a gentileza do Capitão que lhe emprestou as roupas de um parente; diz que  fugiu com o homem errado e ele contou-lhe da empreitada, diz querer ir também à empreitada da água para livrar Horácio da loucura. Nisto.
Horácio faz loucuras e parte; ela sai para ir ao bosque.

CENA 18: PANTALEÃO E GRACIANO
Pantaleão e Graciano desesperados pelos filhos, vão ver se os encontram.

CENA 19: ARLEQUIM, FRANCISQUINHA.
Arlequim com o dinheiro que não gastou, bate na casa de Francisquinha. Ela sai de casa, feito os lazzi, enfim se revela como irmã de Arlequim (ele havia sido dado para Pantaleão cuidar); manda-o para casa consumar o casamento com Hortência. Arlequim, feliz, entra. Nisto.

CENA 20: PANTALEÃO, FRANCISQUINHA
Pantaleão aparece sofrendo por Isabela. Francisquinha o consola dizendo que não ela é a sua verdadeira filha e lhe narra a troca (de Hortência com Isabela e diz que ele não poderia casar-se com a própria filha); diz também que Arlequim está em casa com a futura esposa, e o chama.

CENA 21: ARLEQUIM, PANTALEÃO, FRANCISQUINHA
Arlequim, amarrando as meias, confessa tudo (não ter comprado nada pro banquete nem para noiva); Pantaleão briga com Francisquinha e manda Arlequim se vestir como um nobre; ela entra em casa. Arlequim vai comprar roupa e sai. Nisto.

CENA 22: HORÁCIO, GRACIANO, PANTALEÃO
Horácio entra em cena fazendo loucuras. Graciano o segue preocupado, ele e Pantaleão combinam algo ao ouvido. Nisto: Horácio continua suas loucuras. Os velhos o pegam e o surram, entram com ele em casa.

Bosque (Ator 7 puxa o cenário do bosque, ator 5 opera máquina de fumaça, som de trovão depois de fonte d’água).

CENA 23: CAPITÃO, ISABELA, LEÃO e MAGO
Capitão do bosque, atira com estilingue. Nisto: Isabela implora para ser a primeira a pegar a água, ele não quer. Nisto: Leão surge, Capitão foge, Leão acaricia Isabela que entra para pegar a água com a permissão do mago. Nisto: há a transformação do Leão no Mago. Mago volta com uma garrafinha e vão à cidade. Todos saem.

Cidade (Ator 7 puxa o cenário anterior de cidade).

CENA 24: CAPITÃO, PANTALEÃO, ISABELA, FRANCISQUINHA, HORÁCIO, HORTÊNCIA e ARLEQUIM.
Capitão, fugindo, é o primeiro a chegar na cidade. Pantaleão prega uma peça nele (imitando leão). Nisto: Isabela, com a água, faz chamar Horácio. Pantaleão vai pegar Horácio. Francisquinha surge e pergunta da aventura. Pantaleão trás Horácio amarrado e vendo as duas conversando revela a Isabela que ela não é sua filha, mas de Francisquinha. Hortência entra e diz que ouviu tudo. Francisquinha revela não ser a mãe de Hortência e Pantaleão ser o seu pai. Isabela diz que nada importa, somente o seu amor, Horácio é banhado por Isabela com a água, ele se cura e a esposa; Pantaleão chama Arlequim, que vem vestido de nobre, depois de muitos lazzi esposa Hortência. Fazem alegrias.

Termina a tragicomédia.

Cenas a serem ensaiadas:
Horácio e Isabela trocam juras de amor.
Pantaleão e Capitão declaram seu amor.
Capitão narra as suas bravuras.
Feitos os Lazzi (de se posicionarem para serenata).
Músico canta.
Horácio fazendo loucuras.
Pantaleão finge ser Conde Polidoro.
Horácio: prega uma peça jogando cartas.
Francisquinha lazzi o dinheiro compra a irmandade e troca na maternidade.
Noivos se esposam.
Fazem Alegrias (Filhas cumprimentam novos pais, Hortência se transforma em Graciano).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Morro das Artes

O Morro das Artes ficou sem água. Passei todo o final de semana passado e hoje consertando a fiação que serve para ligar a bomba d'água, eu e Paulo Henrique, o mais novo morador do Morro das Artes, sede da Associação Cultural Arte em Todas as Partes. Lá é um ponto de Cultura da Fundação Gregório de Matos mas não tem água da embasa, temos de puxar de um poço a uns 150 metros da casa.

No meio da capoeragem já ouvi muito: "rapadura é doce mas não é mole!". Não é brinquedo não manter um sítio sede de uma ONG. Tantos já passaram por lá, tantos foram os eventos, mas todos passaram, menos Paulo Henrique. Hoje é ele quem está dando vida ao local. Mas quem se interessa com o Cassange? Quem sabe onde fica? Na semana passada, no BA TV passou uma reportagem sobre o Cassenge! Os jornalistas não sabiam nem falar o nome certo do bairro: Cassange. Reportagem que acusava a falta de água, asfalto, escolas, transporte, posto de saúde, ou seja, TUDO! Onde fica? Km 2 da Estrada do Cia, aquela no Salvador Norte Shopping!

Mas meu vizinho de cerca está loteando seu terreno. São 120 m² por R$3000,00 (R$500,00 de entrada e R$100,00 por mês sem juros) deve ter uns 30 lotes por lá. Se pagar a vista ele deve dar um desconto. Seu telefone é 33951688, seu nome é Lauro Paim. Divulgo aqui pois acho melhor que os amigos comprem e não desconhecidos. Quem sabe não aparece um grupo que queira administrar uma ONG?

Em baixo alguns links da Associação.

http://www.fotolog.com.br/artetodaparte/mosaic

http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=9665980223486604035&rl=t

http://www.culturatododia.salvador.ba.gov.br/lista-catalogo-polo.php?cod_area=4&cod_polo=64

http://pontoapontobahia.wordpress.com/salvador-arte-no-morro/

http://www.via6.com/empresa/89944/associacao-cultural-arte-em-todas-as-partes

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Corpus para a pesquisa contemporânea em Commedia dell’Arte

Esse foi o texto publicado por mim no VI Congresso da ABRACE em São Paulo. Na verdade queria publicar só o link mas o portal da ABRACE está bem complicado... e não sei se está lá. Mas deveria!


Corpus para a pesquisa contemporânea em Commedia dell’Arte

Marcus Villa Góis
Programa de Pós-Gradução em Artes Cênicas – Ufba
Doutorando – Artes Cênicas – Or. Prof. Dr. Armindo Bião
Bolsa Fapesb

Resumo: Procura-se definir um corpus de referência para a dramaturgia do ator na Commedia dell’Arte e indicar a multiplicidade e variedade de textos produzidos por seus atores/ autores, ordenados por nome e ano de publicação, com a indicação de gênero teatral, cidades e editoras da primeira e posteriores edições. Esse corpus contém, exclusivamente, textos do que se considera, tradicionalmente, como dramaturgia e, também, textos de outro tipo de dramaturgia, menos tradicional, conhecida pelo termo plural de zibaldoni, que, embora sejam de ficção, com personagens, monólogos ou diálogos, não possuem a configuração de uma fábula, argumento, mito ou história, e que foram produzidos com o objetivo principal de dar suporte à improvisação em cena.

Palavras Chaves: Ator. Commedia dell’Arte. Corpus. Dramaturgia. Zibaldoni.

Para se definir um corpus de referência para a dramaturgia do ator na Commedia dell’Arte, antes de tudo, devemos lembrar que ela é múltipla e variada. Os atores/autores de Commedia dell’Arte publicaram diversas formas de textos. O que podemos considerar dramaturgia, por conter personagem, fábula e ação, são os textos dramáticos e os roteiros (canovacci). Estes últimos configuram uma dramaturgia, porém sem as falas das personagens, somente com indicações das ações a serem cumpridas. Das outras formas de texto destacamos: poesias; orações fúnebres, odes e dedicatórias; biografias; cartas; tratados teatrais e em defesa da profissão; e os zibaldoni. Zibaldoni são textos que contêm monólogos ou diálogos escritos por atores a partir da sua experiência pessoal, criados, a primeira vista, para auxiliar na interpretação “improvisada” de outros atores, mas que não possuem necessariamente uma fábula, argumento, mito ou história.
Neste artigo apresentamos somente os textos dramáticos e os zibaldoni. Eles surgem em duas notas de rodapé ordenados por seus autores, e pelo ano da publicação. Indicamos o gênero teatral, a cidade e editora da primeira edição e das edições posteriores italianas. Quando a referência não possui editora registramos: sem indicação tipográfica; s.i.t..
Gostaria de apresentar alguns textos dramáticos escritos por atores[1]. O ato de escrever o texto completo foi uma tendência que se amplificou no decorrer das décadas na Commedia dell’Arte, e certamente foi essa uma das causas da sua dês-configuração e do seu desaparecimento.
Dentre os textos dramáticos destacarei alguns. Em 1583 Bernardino Lombardi, cômico Confidenti, escreveu O Alquimista, neste texto comparece somente uma máscara a do Doutor Graziano que fala bolonhês, talvez inaugure uma tradição dramática e espetacular de frenética troca de roupas e conseqüentemente de camas. Em 1584 Bartolomeu Rossi, também cômico Confidente, escreveu Fiammela uma pastoral em que as máscaras chegam à Arcádia transtornando o mundo das ninfas e pastores. Em 1588 Isabella Andreini publica Mirtilla uma fábula pastoral inspirada diretamente na Aminta de Torquato Tasso com trechos virtuosos de lamentações de amor. 1610 foi o ano de La Flaminia Schiava de Pier Maria Cecchini onde comparece uma única máscara, a de Frittellino, que cria uma série de “invenções” repetidamente desfeitas pela insegurança do enamorado. Sete anos após a morte de sua esposa Isabela, Francesco Andreini publica, em 1611, as pastorais A Enganada Proserpina e A Altivez de Narciso, ele já havia parado de fazer teatro e acompanhava o filho na companhia dos Fedeli. L’Inavvertito é uma comédia de Nicolò Barbieri, publicada em 1629, criada sob a inspiração direta de Flaminia Schiava de Cecchini; é o contraponto da inteligência do servo Scapino (máscara criada por Francesco Gabrielli) com a estupidez dos patrões que raciocinavam através da ciência inútil e da cultura acadêmica. L’Amico Tradito também de Cecchini, de 1633, discute o binário amor / amizade e possui falas nos dialetos: veneziano de Pantaleão, bolonhês de Graziano e o bergamês do Bagattino. Lucilla Costante (1632) de Silvio Fiorillo possui uma estrutura simples de cruzamentos amorosos, é entrecortada pelas “invenções” de Volpone com equívocos, confusões e bastonadas, termina com um duelo do Capitão com Putinella.
Sobre Giovan B. Andreini (nascido em 1577 ou 79 e morto em 1654) devemos tratar à parte porque ele possui 45 obras, sendo, ao menos, 17 textos dramáticos. Em Lo Schiavetto (1612) o personagem Nottola se finge príncipe com todos os mimos possíveis, até que Facetto interpreta três cenas. La Ferinda (1622) é uma comédia de máscaras em melodrama, protótipo de uma ópera buffa. Em Amor nello Specchio o autor retrata uma mulher narcisista que se apaixona pela imagem de outra mulher, o espetáculo teria sido sem máscaras. Em Le Due Comedie in Comedia (1623), Andreini se utiliza da duplicação das falas entre as cenas no palco e na vida, a representação de uma comédia serve a revelar um mistério do passado. Em Sultana Andreini descreve uma coreografia e a faz acompanhar de dois desenhos, em outro momento descreve as “ordens para interpretar”. Em Venetiana uma cena coral de festa carnavalesca é colocada em relevo. Em todas as peças de Andreini podemos observar uma função coral em sua dramaturgia, assim como o papel do diretor e um longo período de ensaios, estranho ao estereótipo da Commedia dell’Arte, feito somente ao improviso. Giovan se destaca por um teatro na época impossível, um teatro com muitos ensaios e direção, não feito como os cômicos dell’Arte faziam, com suas memórias e personagens, mas com projeto e devaneio. De fato ele nos deixa um tratado com mais de oito mil versos com mudanças de cena e maravilhas cenotécnicas Il nuovo Risarcito Convitato di Pietra in versi composto manuscrito conservado na Biblioteca Nacional Central de Florença e transcrito na monografia de Mariella Greci para a Universidade de Parma em 1969: Studi su G. B. Andreini.
Trataremos também da função dos zibaldoni[2]. Em 1588, Vincenzo Belando escreveu Lettere Facete e Ghiribizzose. O autor foi um homem de teatro, proveniente da Sicilia, que escreveu um texto com um emitente conhecido, mas com um destinatário mais imaginado que real. Eram cartas espirituosas e caprichosas permeadas por uma fala bufonada, mas também com orações no estilo humanista reunidas por um exercício retórico. Muitos foram os autores que publicaram cartas: Aretino, Ruzante, Maquiavel, Bembo, Caro, Giovio, Guarini, Parabosco, Bernardo e Torquato Tasso; Andrea Calmo (1547 a 1566) produziu quatro volumes contendo vários e engenhosos discursos filosóficos, em cartas endereçadas a diversas mulheres em diversas ocasiões para cortejar (FERRONE, 1997, p.18), eram obras autônomas em relação ao teatro, mas nem por isso deixavam de ser um reservatório de deixas e frases de efeito. No entanto, elas não poderiam ser consideradas ainda zibaldoni ou genéricos.
Cesare Rao, já em 1573, publicou L’argute e Facete Lettere na qual identificou emitente e destinatário com papéis teatrais (Lus Burchiella, Graziano, Stefanel Bottarga, um Pedante, Zan Ganassa, um estudante, um doutor, um bravo, um médico, e outros). Não é o genérico dos grandes atores, mas se apresenta como um retrospectivo e compêndio da arte do ator, destinada ao esquecimento, e pôde ser usado e avaliado por outros atores. Deste tipo temos ainda Reponse di gestes de Arlequin... de autor anônimo publicado em 1585 e Dialogo dei giuochi che nelle vegghie Senesi si usano fare de Bargagli publicado em 1572. Esta obras formam uma coleção de memória profissional, devidamente sublimada, mais do que uma antologia de invenções literárias.
Os zibaldoni registraram o que os atores já faziam com seus personagens, eles foram a privatização do que já era de consumo público.  Foi dito, em chave espetacular, que os atores medíocres escreveram as comédias por inteiro e os grandes atores comerciaram suas memórias exaltando um personagem além do espetáculo. Nestes textos raramente se encontra uma hierarquia interna, são compostos das lembranças de um repertório individual, sem a indexação por uma dramaturgia.
Com essas obras os autores/ atores conquistavam um sobrenome separado do nome de arte. Muitos destes textos são monocórdios e monótonos, mas os distinguiam dos bufões; mesmo sem possuir um atrativo dramático os textos declaravam uma genealogia teatral. Através de cada papel surge a síntese de uma carreira profissional e biográfica que denotava a complexidade da vida do ator, e com estes textos, provada através de uma tradição literária. Com essas obras se demonstrava a impossibilidade de tornar-se ator da noite para o dia, se estipulava um repertório a adquirir antes de alcançar a fama e o sucesso, se estabelecia que não existia o teatro antes dos atores, que não tinham textos antes do espetáculo, e que o balanço do sucesso se faz depois de uma vida teatral.
O resumo da carreira se tornou o traço original da dramaturgia dos atores profissionais. A transcrição dos comportamentos acumulados e sedimentados só era escrita depois de muitas apresentações, viagens e parcerias. Os zibaldoni testemunham que o teatro é anterior ao texto escrito, é a mais pura exposição cênica, o que não significa que sejam poéticos, aliás, é uma confissão da impotência dramatúrgica. 
Estes textos, classificados como Zibaldoni, foram direcionados a todos os leitores e na verdade nunca se propuseram como instrumentos de trabalho exclusivo para os atores. Como dito, eles reivindicam a própria dignidade literária. O que não significa que não tenham sido usados pelo atores como papéis genéricos. Nos Prólogos, de Domenico Bruni, no qual fala uma doméstica, este fato se faz claro:
De manhã a senhora me chama: - Olá, Ricciolina, me traga a namorada Fiammetta que quero estudar. Pantaleão me pergunta das cartas de Calmo. O Capitão As Bravuras do Capitão Espavento. O Zanni as astucias de Bertoldo, o Fugilozio e as Horas de Recreação. Graziano as sentenças do Naturista e a novíssima Poliantea. Franceschina quer a Celestina para aprender a fazer a alcoviteira. O namorado quer a obra de Platão e quase ao ponto de me pedirem tudo ao mesmo tempo[3] (BRUNI, 1621 apud TAVIANI, 1982, 422).
BIBLIOGRAFIA
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[1] Textos Dramáticos:
ACCADEMICO RINOVATO. [LOMBARDI, Bernardino?]. Fillide. Pastoral. Ferrara: V. Baldini, 1579.
ANDREINI, Francesco. L’ingannata Proserpina. Écloga pastoral. s.i.t. 1611.
                L’alterezza di Narciso. Écloga pastoral. s.i.t. 1611.
ANDREINI, Giovan Battista. La Florinda. Tragédia. Milão: G. Bordoni, 1606.
                La turca. Comédia. Casale Monferato: P. Goffi, 1611. (Veneza: P. Guerigli, 1620.)
                Lo Schiaveto. Comédia. Milão: P. Malatesta, 1612. (Veneza: G.B. Ciotti, 1620.)
                L’Adamo. Representação sacra. Milão: G. Bordoni, 1613. (Milão: G. Bordoni, 1617. Perugia: Bartoli, 1641.)
                La Maddalena. Representação sacra. Mântua: A. eL. Osanna, 1617. (Milão: G. B. e G.G. Malatesta, 1652.)
                La Veneziana. Comédia do Sior Cocalino de’ Cocalini (Pseudônimo). Veneza: A. Polo, 1619. (Veneza: F. Raimondi, 1619.)
                Il Mincio ubbidiente. Verona: F. Bertoni, 1620.
                Intermedio. Mântua: Fratelli Osanna, 1620.
                Lelio bandito. Tragicomédia pastoral. Milão: G.B. Bidelli, 1620. (Veneza: G.B. Combi, 1624.)
                La Campanaccia. Comédia. Sob pseudônimo: Giovanni Rivani. Paris: s.i.t., 1621. (Veneza: Salvadori, 1623 e 1627. Milão: Fontana, 1627.)
                Amor nello specchio. Comédia. Paris: N. Delavigne, 1622. (Roma: Bulzoni, 1997.)
                Li duo Leli smili. Comédia. Paris: N. Delavigne, 1622.
                La Centaura. Comédia pastoral e tragédia. Paris: N. Delavigne, 1622. (Veneza: Gh. e I. Imberti, 1625. Veneza: S. Sonzonio, 1633.)
                La Ferinda. Comédia. Paris: N. Delavigne, 1622.
                La sultana. Comédia. Paris: N. Delavigne, 1622.
                Le due comedie in comedia. Veneza: Gh. e I. Imberti, 1623.
                La Rosella. Tragicomédia pastoral. Bolonha: C. Ferroni, 1631.
                Li duo baci. Comédia pastoral. Bolonha: G. Monti e C. Zenero, 1634.
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[2] Zibaldoni.
ANDREINI, Francesco. Le bravure del Capitano Spavento divise in molti ragionamenti in forma di dialogo. Vol. I, Veneza: G.A. Somasco, 1607. (Veneza: Somasco, 1609 e 1615.) Vol.II, Veneza: G.A. Somasco, 1618. Vol. I e II. Veneza: G.A. Somasco, 1624. (Veneza: Barboni, 1669. TESARI, Roberto. Org. Pisa: Giardini, 1987.)
                Ragionamenti fantastici posti in forma di dialogo rappresentative. Veneza: G.A. Somasco, 1612.
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                Fragmenti d’alcune scritture... raccolte da Francesco Andreini. Veneza: Combi, 1621. (Veneza: Combi, 1625 e 47)
[ANÔNIMO] Reponse di gestes de Arlequin au poète fils de Madame Cardine, en langue Arlequine, en façon de prologue, par luy mesme, de sa descente aux Enfer et du retour d’iciluy. Paris: Pour Monsieur Arlequin, 1585.
[ANÔNIMO] Dialogo amoroso di Fedele Comico. Manuscrito V,2,5 na Biblioteca Estense de Módena, [1598].
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BRUNI, Domenico [Fulvio]. Prologhi. Manuscrito na Biblioteca Braidense de Milão. Turim: s.i.t., 1621. (Paris: N. Callemont, 1623.)
                Fatiche comiche. Paris: N. Callemont, 1623.
                Dialoghi scenici di Domenico Bruni detto Fulvio, Comico Confidenti, fatti da lui in diverse occasione ad istanza delle sue compagne Flaminia, Delia, Valeria, Lavinia e Celia. Cópia do manuscrito original na Biblioteca Teatral do Burcardo, Roma: s.d..
CANTÚ, CARLO. Cicalamento in canzonette ridicolose, ovvero tratato di matrimonio tra buffetto, e colombina comici. Florença: Massi, 1646.
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SOLDANO, Aniello [Spaccastrummolo]. Fantastiche e ridicolose etimologie recitate in commedie...  Bolonha: V. Benacci, 1610.

[3] La mattina la signora mi chiama: - Olà, Ricciolina, portami la inamorata Fiammetta che voglio studiare. Pantalone mi domanda le Lettere del Calmo. Il Capitano Le Bravure del Capitano Spavento. Il Zanni le astuzie di Bertoldo, il Fugilozio e l’Ore di Ricreazione. Graziano le sentenze dell’Erborense e la novissima Poliantea. Franceschina vuole la Celestina per imparare di far la ruffiana. L’innamorato vuol l’opera di Platone e quasi in un punto chi mi comanda una cosa, chi un’altra.